Técnicas de Redação para Concurso
altos na seqüência de ações, omitindo fatos,
sugerindo acontecimentos, apresentando cortes temporais, quebrando a seqüência lógica e
cronológica da história. Nesse tipo de narrativa, o tempo cronológico e o espaço concreto são
substituídos por flashbacks (retrospectivas ou voltas), flashforwards ou prolepses
(antecipaçôes), ou ainda, algumas vezes, são suprimidos.
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A narrativa de natureza complexa, em que se misturam passado, presente e futuro,
normalmente é estruturada por um enredo não-linear.
Leitura Comentada
Tantas Mulheres
Descobrisse ela que a amava com tal fúria, estava perdido. A salvação era fugir e, com a
desculpa da mãe doente, afastou-se alguns dias da cidade.
- Há tanto tempo, João!
- Pois é, mãe.
- Deixe-me vê-lo, meu filho. Você está um homem.
Encontrou o quarto arrumado, como no dia em que partira, havia quantos anos? Bebia sozinho
nos bares, voltava de madrugada para casa.
- É você, meu filho?
- Durma bem, mãezinha.
Ganhar a paz na renúncia do amor. Éle, que era de gesto violento, não tinha coragem de arrancar
a faca do coração? Ah, quanta vergonha na partida, em que havia ido às duas da manhã, debaixo de
chuva, espiar a janela fechada. Nem sequer chovia - ele que chorava. Não enxugava a lágrima quente no
olho, fria no canto da boca. Bem sabia por que dissera consigo quando o avião pousou: "Não se alegre,
cara feia, você foi poupado para morte pior".
A mãe ali na porta:
- Meu filho, soube de uma coisa muito triste.
- Que é, mãe?
- Você gosta da mulher de outro. Verdade, João? São tristes os seus olhos.
- Iguais aos seus, mãe.
Bebia no gargalo, jogava paciência no quarto, lembrou-se de comprar escova de dente. Antes de
vestir o paletó, enxergou a mosca sobre as cartas: "Há que matar essa bichinha". Depois de matá-la,
poderia sair. Gentilmente a perseguiu: "mosca pelo nariz, a lágrima correu do olho", repetia com seus
botões, "nariz da mosca é olho da lágrima" - e com o jornal dobrado esmagou a mosca.
"Era outra bichinha, não a mesma." Remoendo a dúvida, das dez da noite às duas da manhã,
ainda sem paletó, quando passou pelo sono. "Que foi que me aconteceu" - interrogava-se. as mãos na
cabeça - "a que ponto me degradei?"
Chegara a sua vez, fora apanhado. Pensava na amada, olho perdido num objeto qualquer,
deixava de vê-lo e o coração latia no peito. Não havia perigo: que é o ato gracioso de beijar uma boca,
qual a lembrança de uma noite? Sou um homem, com experiência da vida. Depois, encurralado no velho
sofá de veludo, sem fugir dos olhos acesos a cada fósforo - e nunca mais beijar o pequeno seio como
quem bebe água na concha da mão.
Chovia, ela aninhava-se nos seus braços, a face trêmula das gotas na vidraça. Cada gesto uma
descoberta: a maneira de erguer o rosto para o beijo e de sorrir, aplacada, depois do beijo. Estendida nua
entre as flores desbotadas do sofá: Eu não gastei de outro... Mentia, bem que ela mentia! Doente de amor.
Quero você. Venha por cima de mim. Nunca mais livre do teu peso.
- Tenho de voltar, mãe.
- Não disse que ficava uma semana?
- Pois é, mãezinha.
- Por causa do emprego, meu filho?
- Assunto urgente. Um amigo me chama. Caso de vida ou morte. Não sei o que se passa comigo.
Estou em aflição, tremo sem saber por quê. A senhora me ajude, mãe. Um mau-olhado estragou minha
vida. Estranho e misterioso, não sei o que é. Sem ânimo para nada. Não durmo, não como, pouco falo.
Quem sofre é a senhora. Sei que ficará preocupada, mas não deve. Que será isso, mãezinha? Desespero
tão grande que tenho medo. Bem pode ser alguma muIher. Tantas passaram pela minha vida.
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Comentários
(Dalton Trevisan - Desastres do Amor - Rio de Janeiro, Record, 1979)
Observe que neste conto de Dalton Trevisan há uma clara intersecção entre dois
tempos: o tempo do agora da narração, em que o protagonista se afasta da mulher amada e
vai visitar a mãe, e o tempo de que se lembra: os momentos de amor dos quais não consegue
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