Técnicas de Redação para Concurso
baço dos místicos. Pareciam perscrutar todos os mistérios da vida: profundos, serenos, fixavam-se nas
pessoas como se fossem os olhos da consciência, e ninguém os agüentava por muito tempo, tal a sua
intensidade. O olho esquerdo tinha uma expressão de inquietante expectativa.
Os lábios, de rebordos bem definidos, eram perfeitos e em harmonia com o contorno do rosto, de
maçãs ligeiramente salientes. O nariz, quase imperceptível na serenidade meditativa do conjunto. Mas
possuía narinas que se dilatavam nos raros momentos de "cólera sagrada", como costumava definir suas
zangas.
A voz soava grave e profunda. Quando irritada, emergia rascante, em estranha autoridade, dotada
de algo que infundia respeito. Tinha um pequeno defeito de dicção: arrastava nos erres por causa da
língua presa.
A mão esquerda era um milagre de elegância. Muito móvel, evolucionava no ar ou contornava os
objetos com prazer. No trabalho, ágil e decidida, parecia procurar suprir as deficiências da outra dura,
com gestos mal controlados, de dedos queimados, retorcidos, com profundas cicatrizes.
Cumprimentava às vezes com a mão esquerda. Talvez por pudor, receosa de constranger as
pessoas, dirigia-se a elas com economia de gestos. Alguns de seus manuscritos eram quase ilegíveis.
Assinava com bastante dificuldade, mas utilizava ambas as mãos para datilografar.
Era profundamente feminina, exigia e se exigia boas maneiras. Bem cuidada no vestir, vaidosa,
mas sem sofisticação.
Nunca saía sem estar maquilada e trajada às vezes com algum requinte: turbante, xale, vários
colares e grandes brincos. O branco, o preto e o vermelho eram uma constante em seu guarda-roupa.
O batom geralmente era de tom rubro forte; o rímel negro, colocado com sutileza, aumentava a
obliqüidade e fazia ressaltar o verde marítimo dos olhos. Indiscutivelmente era mulher interessante, de
traços nobres e, talvez, inatingível.
Quanto à afetividade, acreditava que, quando um homem e uma mulher se encontram num amor
verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importando brigas e desentendimentos.
Ambicionava viver numa voragem de felicidade, como se fosse sonho. Teimosa, acreditava,
porém, na vida de todos os dias. Defini-la é difícil. Contra a noção de mito, de intelectual, coloco aqui a
minha visão dela: era uma dona-de-casa que escrevia romances e contos.
Dois atributos imediatamente visíveis: integridade e intensidade. Uma intensidade que fluía dela
e para ela refluía. Procurava ansiosamente, lá, onde o ser se relaciona com o absoluto, o seu centro de
força - e essa convergência a consumia e fazia sofrer. Sempre tentou de alguma maneira solidarizar-se e compreender o sofrimento do outro, coisa que acontecia na medida da necessidade de quem a recebia. O
problema social a angustiava.
Sabia o quanto doíam as coisas e o quanto custava a solidão.
São muitos os "mistérios" que aos olhos de alguns a transformaram em mito. Simplesmente,
porém, em Clarice não aparecia qualquer mistério. Ela descobria intuitivamente o mistério da vida e do
ser humano; em compensação, era capaz de dissimular o seu próprio mistério.
(Olga Boreli - Clarice Lispector, Esboço para um possível retrato - texto adaptado - Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1981)
Comentários
Vejamos, comentando o texto apresentado, algumas características fundamentais do
texto descritivo:
a) Descrição: Objetivo e Ponto de vista
Repare que o objetivo da autora, no texto lido, é traçar um perfil físico e psicológico de
Clarice Lispector, grande escritora da literatura brasileira, de quem foi amiga.
O seu ponto de vista ao realizar a descrição pressupõe, portanto, proximidade com o
objeto descrito, o que percebemos pela qrande quantidade de detalhes reveladores de
convivência íntima, presentes no texto.
Além disso, a imagem de Clarice que Olga Boreli pretende transmitir ao leitor está
explicitada na seguinte passagem do texto: Defini-la é difícil. Contra a noção de mito, de
intelectual, coloco aqui a m
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